“Se na verdade eu virasse pra você agora e dissesse “acabou o amor, pode levar suas coisas”, você riria de mim? Riria do meu jeito sádico de jogar nas latas uma história embolorada que já não faz tão bem assim, que já não faz sorrir nem serve de travesseiro pra que eu durma bem, eu tenho certeza. Riria e me diria pra sossegar um pouco, meu bem, que a gente ainda não se machucou o bastante pra deixar o outro ir. Se eu virasse e enumerasse quantas pessoas e estrelas eu olhei no caminho pra casa, você me diria que eu sou louca. Louca de pedra por achar que liberdade significa desatar a gente, quando eu bem sei que ficaria louca de verdade se fosse pra muito longe. E você também. Ficaria louco e entornaria os copos d’água no chão, numa paralisia instantânea que comunica: vocês se envenenam e ainda vão acabar matando um ao outro. Vão matar as dores, vão se matar de amores, vão mentir que não amam mais só pra não sentir cada fagulha queimando no peito. Vão mentir que é azia, que a gastrite subiu e atingiu o coração, vão vomitar meias-verdades como se jurassem de pés juntos diante da cruz. Ah, vamos sim, você vai rasgar as minhas cordas vocais pra eu não denunciar a loucura que seria deixar você. Se eu olhasse nos teus olhos e dissesse baixinho que a gente é do tipo que se junta pra se destruir e não vê isso, que acaba com tudo e apaga os poucos sonhos e embola a roupa suja e põe o outro pra baixo do tapete pra esconder as partes feias, você me diria pra parar de pensar demais. Pra parar de achar que a gente merece ser feliz quando a gente merece o outro. Afinal tem tanto tempo e tanta coisa e tanta briga e tanto grito e tanto choro que nem dá pra lembrar, mas um dia a gente foi feliz. A gente foi e você sabe, você tenta lembrar, você arrisca que tenha sido até o segundo ano ou antes e nem adiantaria dizer agora que eu tava tentando salvar a gente quando fugi de você. Por que você não foge de mim ou me atira dum precipício com o carro em movimento pra me libertar da maldição de ser infeliz? Se eu te pedisse desculpas e tentasse consertar as coisas agora, será que daria tempo da gente ser um pouco mais feliz? Você teria vontade e os vizinhos perceberiam e sua mãe perceberia e meus amigos perceberiam que a gente não se arruinou tanto assim. Eu passaria a chegar mais cedo e você deixaria de desligar o celular pra sentar à mesa novamente. A gente brindaria e diria que é amor, dá até pra ver os lábios repuxando num sorriso menos mentiroso. Você dormiria do meu lado e eu desfaria as coisas da sala, com edredom a tiracolo e sem os cacos jogados do porta-retratos, e sonharia junto. E foi apenas um sonho. E a gente acordaria e eu diria que. Se eu te confiasse um segredo e jurasse no pé do seu ouvido – antes de tirar a pólvora, colocar essa frase e te dar um tiro – contando pra você que nosso amor não passa de obsessão?”
Daniel Bovolento.